Alice No País Das Maravilhas

maio 17, 2010

Senti falta do bizarro. Do surreal. Do maluco, mesmo. Ainda mais por ser um filme do Tim Burton. Para você ter uma ideia, o desenho da Disney lá de 1951 era muito mais lisérgico, despirocado e nonsense. E acho que era isso que eu esperava encontrar bem lá no fundo (da toca do coelho).

O problema é todo da história, que agora segue linear como qualquer aventura convencional, onde cada personagem tem função e lado definido. No filme anterior da mesma Disney, tudo era muito episódico, e sem muito sentido (tal qual o livro de Lewis Carroll). O Gato Risonho surgia como um galhofeiro fdp, capaz de sacanear a Alice até mesmo no seu terrível julgamento final. O Chapeleiro era louco mesmo, e não apenas uma alma amargurada com motivos de sobra para escorregar pelo viés da insanidade. E os outros personagens também surgiam banhados na mais saudável irracionalidade. Agora tudo se resume à básica luta do bem contra o mal.

Mesmo não gostando muito da antiga versão Disney, que penso ter cantorias demais, devo confessar que ela é bem mais interessante do que a visualmente bela e virtualmente oca versão do Burton. Faltou delírio para um cineasta sempre tão associado a tais arroubos.

(Alice In Wonderland – 2010) – Trailer
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Wolverton
Elenco: Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Anne Hathaway, Mia Wasilkowska, Crispin Glover, Alan Rickman, Stephen Fry, Michael Sheen

O Justiceiro: Em Zona De Guerra

maio 11, 2010

Começando com um trocadilho fraquinho: “O Justiceiro: Em Zona De Guerra” é um filme que faz justiça ao personagem dos quadrinhos. Não economiza no sangue nem na violência, tal qual o Justiceiro original. Mata, tortura e arrebenta sem nem perguntar se tá bom pra você. E convenhamos que o Justiceiro não é lá muita coisa além disso, né? Até por isso, o herói-anti-herói (vilão?) nunca me agradou muito. E se o filme não consegue ser melhor do que é, com toda certeza a culpa é do Justiceiro – e do conceito original por trás dele (epa!).

A diretora Lexi Alexander até consegue criar alguns bons momentos de ação, sendo a explosão do traceur do mal a melhor de todas. O estilo visual, capaz de deixar o filme sombrio e colorido ao mesmo tempo, também é digo de nota. De resto, temos uma história de origem (do vilão) relativamente simples, com direito a uma sub-trama mais, digamos, humana, que inclui uma criancinha (óbvio) capaz de fazer Frank Castle relembrar os filhos e a chacina que originou o seu alter-ego assassino.

E é isso. O vilão Retalho não vai além de um sub-coringa rancoroso. Os “parceiros” do herói são exatamente aquilo que vemos nas HQs: meros acessórios. E o que resta então é o estilo vingativo de tantos outros anti-heróis do cinema, todos à sombra do Paul Kersey de “Desejo De Matar”. Nada além disso. Mas convenhamos que, para o Justiceiro, chegar até este ponto já está bom demais.

(Punisher: War Zone – 2008) – Trailer (Red Band)
Direção: Lexi Alexander
Roteiro: Nick Santora, Art Marcum, Matt Holloway
Elenco: Ray Stevenson, Dominic West, Dough Hutchison, Julie Benz

Garota Infernal

maio 5, 2010

Típico filme vitimado pelo próprio hype que gerou: Diablo Cody roteirizando terror adolescente; Megan Fox mais gostosa do que nunca; Megan Fox vestindo só fetiches nas fotos de divulgação; Megan Fox peladona num set, saindo de um lago geladão (e olha que a cena no filme é ultra-mega-hiper-comportada). E pronto. O filme está devidamente hypado e, com o seu lançamento, ele é logo acusado de não corresponder às expectativas.

Por isso, nada melhor do que assisti-lo no pós-hype. Pra se divertir. E pronto.

Diferentemente de 99% dos filminhos de terror adolescente, aqui as mortes não são tantas nem são tão pirotecnicamente calculadas. E curiosamente, todas têm efeito. Nos filmes mais banais de terror as mortes são banais também. Ninguém chora pelos mortos, não há muitos funerais e luto e dor. Aqui, curiosamente, os pais sofrem suas perdas, assim como os colegas e coisa e tal. E isso é legal. Humaniza um pouco mais as jovens vítimas.

O humor também é bem dosado, com tiradinhas-Diablo-Cody pra lá e pra cá. Há um certo esforço em deixar cada personagem um pouquinho menos bidimensional. E isso é legal.

Pena que falte medo. Terror mesmo. E um pouco mais de podridão, sangueira, vísceras e coisa e tal.

E pena também que a trama seja previsível e a opção do início acabe por revelar muito do fim.

Mas tudo bem. Ainda assim é um terrorzinho adolescente bem acima da média. E poderia ser ainda melhor, não fosse o hype.

(Jennifer’s Body – 2009) – Trailer
Direção: Karyn Kusama
Roteiro: Diablo Cody
Elenco: Amanda Seyfried, Megan Fox, Johnny Simmons, J.K. Simmons, Adam Brody

Trailer De Machete

maio 5, 2010

Particularmente, eu gosto do Robert Rodriguez. Mas há tempos ele virou refém de si mesmo, ou do seu estilo banda-do-eu-sozinho. “Machete” era uma boa piada em “Grindhouse”, mas agora exige história completa pra funcionar de forma independente. Será que se sustenta? Parodiar os filmes setentistas classe Z em um trailer é uma coisa. Em um filme, é outra. Pra fazer direito, você precisa ser Tarantino, no mínimo. E isso Robert Rodriguez, por mais divertido que seja como diretor, definitivamente não é.

Trailer Do Novo Filme De Joe Dante

maio 4, 2010

Eu gosto muito do Joe Dante. Para comprovar, basta percorrer as entradas antigas deste blog e ler as minhas resenhas para “Gremlins” e “Gremlins 2”. Obviamente, gosto mais do Dante antigo. Até porque, depois de “Matinê”, ele não andou fazendo muita coisa digna de nota.

Até por isso, o trailer de seu novo filme (em 3D, claro) é tão legal. Ele emula um tanto do terror infanto-juvenil dos anos 80, misturado com uma locução bacana (o maior achado do trailer, na verdade) bem no estilo daqueles filmes baratos dos anos 70. A história parece trazer à tona também um pouco do surrealismo do episódio que Dante dirigiu para o filme “Além Da Imaginação”, além de fazer referência direta ao seu clássico “Piranha”, ao Dr. Emmett Brown e a um obscuro filme canadense de 1987 que, se não me engano, recebeu o título nacional de “O Portão” (nada a ver com a música homônima do Roberto Carlos). Sem falar, é claro, do mais delicioso clichê de terror de todos os tempos: o assustador palhaço do mal.

Parece bom, não?

Homem de Ferro 2

maio 3, 2010

Quem disse que mais do mesmo é ruim? Com um roteiro legal, diálogos inspirados, atuações idem e belas sequências de ação, “Homem De Ferro 2” é tão bom quanto o seu predecessor, sem tirar nem pôr.

Mesmo com tantos novos personagens, entre vilões, parceiros da S.H.I.E.L.D. e um certo fantasma paterno, o filme mantém o foco, corretíssimo, em aprofundar-se ainda mais na personalidade (e na dualidade) de Tony Stark. E isso é um puta acerto. Desta vez o personagem, na interpretação ainda mais inspirada de Robert Downey Jr., tem como grande desafio a sua luta contra a morte (e sem necessariamente enfrentar um ou outro vilão mecanizado para tanto). A maneira como um cara como Tony Stark encara este fato é um dos pontos altos do filme. A ação sem ação, que permite um mergulho no lado mecânico-cientista-inventor do personagem, é uma das mais perfeitas traduções de quem realmente Tony Stark é.

De brinde temos diálogos rápidos, ácidos e certeiros, momentos grandiosos e memoráveis (a sequência em Mônaco é o exemplo perfeito) e um equilíbrio perfeito entre humor e tensão.

(Iron Man 2– 2010) – Trailer
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux
Elenco: Robert Downey Jr., Mickey Rourke, Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Samuel L. Jackson

Homem De Ferro

maio 3, 2010

“Homem De Ferro” é como um bom gibi das antigas. Não é pretensioso como uma Graphic Novel, nem pseudo-revolucionário como essas mini-(ou maxi)-séries que pretendem mudar a vida de um herói (ou de todo um universo), mas acabam sempre na mesma, e nem mesmo tosco e abobado como qualquer coisa da Image. É simples, direto, simpático, divertido e funciona exatamente por manter-se com os dois pés neste mundo quase-lúdico onde habitam estes tais super-heróis, sem nunca querer invadir excessivamente a realidade e suas leis da física, suas politicagens e seus meandros complexos (pelo menos não se isso significar fugir do bom e velho maniqueísmo básico).

E é justamente esta fidelidade aos ideais de Lee, Kirby e outros tantos que gera o charme deste “Homem De Ferro”. Mesmo presente no tempo presente, com tecnologia hi-tech, atualizações na história e o caralho a quatro, o filme tem um quê nostálgico, reverente e, ouso dizer, inocente. Culpa de quem eu não sei. Talvez da própria Marvel, que na sua primeira produção como estúdio colocou o que faz sentido e limou os exageros ou adaptações sem razão de ser. Talvez do Jon Favreau, que de coadjuvante memorável (eu, pelo menos, lembro dele) em “Friends”, conseguiu fazer um blockbuster com alma. Talvez de Robert Downey Jr. e companhia, capazes de encontrar a essência de personagens que nunca tiveram lá muita essência. Talvez de tudo isso ao mesmo tempo agora. E talvez ainda da gente, que queria um filme assim, sem tantas muletas de efeitos especiais, mas capaz de contar uma história sem firulas, com bom humor, dedicação, personalidade e simpatia de montão. E tá bão.

P.S. – texto originalmente publicado aqui.

(Iron Man – 2008) – Trailer
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Mark Fergus & Hawk Ostby, Art Marcum & Matt Holloway
Elenco: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Terrence Howard, Gwyneth Paltrow

This Is Spinal Tap

janeiro 27, 2010

Há 5 anos, no MegaZona, eu publiquei este texto sobre o filme “This Is Spinal Tap”:

“Se o rock-farofa de todas aquelas bandas careteiras e posudas – que desde o final dos anos 70 insistem em pentelhar nossos olhos e ouvidos – legou algo de decente para a gente, este legado se resume a um filme fantástico chamado “This Is Spinal Tap”.

Com cara de documentário de verdade, bem antes daquele documentário pseudo-verdadeiro da tal bruxa com nome de primeiro-ministro inglês, este filme finge acompanhar a turnê americana da banda inglesa de mentirinha Spinal Tap, com suas músicas risíveis, suas apresentações megalomaníacas-furadas e suas trapalhadas dignas de uma banda composta pelos famosos roqueiros brasileiros Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Todos os clichês do rock são (e)levados às últimas conseqüências e, por mais imbecis e exagerados que possam parecer, não deixam de parecer reais, ainda mais quando sabemos o quanto imbecis e exagerados podem ser (e normalmente são) os rockstars.

“This Is Spinal Tap” tem trocentas cenas antológicas, desde o longo caminho dos camarins até o palco, passando pela performance nos casulos e culminando no cenário stonehengeniano. Melhor que isso, só mesmo os reveladores e impagáveis depoimentos dos integrantes da banda.

Por conta de tudo isso, esqueça os ótimos “Ainda Muito Loucos” e “Quase Famosos”. O verdadeiro espírito do rock and roll reverbera mesmo é neste DVD dos Spinal Tap.

Adendos: o filme é de 1984 (mas se mantém anacronicamente atual); na época, muitos fãs de hard-rock-heavy-metal-farofeira achavam que tudo aquilo era verdade e só reclamavam que o diretor (também de mentirinha) poderia ter escolhido uma banda mais famosinha; Rob Reiner (o diretor de verdade) também fez os ótimos “A Coisa Certa”, “Conta Comigo”, “A Princesa Prometida”, o clássico “Harry & Sally” e “Louca Obsessão” – depois ele desandou, mas isso não vem ao caso; a maior parte dos diálogos e depoimentos foi improvisada; confira uma das frases dos caras, antes de um dos shows (só pra sentir o nível da banda): “We are Spinal Tap from the UK – you must be the USA!”.”

Continuo concordando com tudo que escrevi na época. Entretanto, na revisão de dias atrás, pude vislumbrar também o absurdo carinho, de todos os envolvidos, para com este infame estilo musical que é o rock-farofa. Existem poesia e sinceridade nas entrelinhas do roteiro, nas pausas dramáticas dos atores, nos takes que insistem em existir além do tempo esperado. “This Is Spinal Tap” é uma piada, mas é também uma declaração de amor a esta piada. Talvez por isso mesmo seja um dos melhores e mais fiéis retratos do bom e velho rock and roll.

(This Is Spinal Tap – 1984) - Trailer
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Christopher Guest, Michael McKean, Harry Shearer, Rob Reiner
Elenco: Christopher Guest, Michael McKean, Harry Shearer, Rob Reiner, Tony Hendra, Fran Dresher, June Chadwick

Contatos De 4º Grau

janeiro 26, 2010

É de verdade? E isso importa, na verdade? Não muito. A não ser que você acredite sempre nos tais “baseados em fatos reais” dos filmes. Porque nada é tão real assim. Ainda mais quando dramatizado. E o que não é dramatizado diante de uma câmera? Só mesmo o que se faz diante dela sem saber da sua existência. E mesmo assim, há quem interprete até assim, posto que vive sempre interpretando, mesmo sem câmera.

Então o real não é o que importa, ainda que divirta pela premissa. O “será mesmo verdade?” é mais viável quando não se tem em mente a ficção. O inexplicado ganha um quê de “eu quero acreditar”. Ou seja, “Contatos De 4º Grau” nada mais é do que um episódio estendido de “Arquivo X”, sem Mulders ou Scullys. A paranoia está lá, assim como as abduções, a hipnose, os testes alienígenas e os contrastes entre o ceticismo e a fé.

E eu, como órfão do seriado de Chris Carter, consegui me divertir. E confesso que até me assustei de verdade em alguns bons momentos. A forma no mínimo curiosa escolhida pelo diretor Olatunde Osunsanmi para apresentar a sua história/tramoia funciona direitinho. Bem melhor do que o medo mequetrefe de “Atividade Paranormal”, por exemplo. Isso porque Olatunde dirige o filme com cuidado, intercalando com coerência a “verdade” e a “encenação”. Sem falar nas boas cenas de ligação, que contam o que aconteceu entre as sessões “veridicamente” filmadas. São planos bem cuidados, com movimentos suaves e uma bela fotografia.

Em resumo: a gente sabe que está sendo enganado, mas a lábia do golpista é boa o suficiente para que possamos apreciar o truque. E esta não, em última instância, uma das definições do que conhecemos como cinema?

(The Fourth Kind – 2009) - Trailer
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Olatunde Osunsanmi e Terry Robbins
Elenco: Milla Jovovich, Will Patton, Elias Koteas, Hakeem Kae-Kazim, Corey Johnson, Melora Walters

Astro Boy

janeiro 21, 2010

Osamu Tezuka é considerado o pai dos mangás modernos e também dos animes. Mas confesso que, até há pouco, pouco ou quase nada conhecia de sua maior criação: “Tetsuwan Atom” ou, ocidentalmente falando, “Astro Boy”. Dos velhos animes, eu era fã mesmo de outra criação do Tezuka: “Kimba – O Leão Branco” (“Jungle Taitei”). Por isso mesmo, fui ver a nova versão animada de “Astro Boy” – desta vez por computador e bem mais ocidentalizada – totalmente livre de preconceitos. E acho que foi bom assim.

Assim, pude apreciar por completo um filme muito legal, com uma história bem elaborada, que remete aos mais caros temas da ficção científica, sem deixar de lado o tom infantil e a diversão propriamente dita. Diferente da maioria das animações computadorizadas de hoje em dia, repletas de gags e referências nem sempre tão espertas quanto querem os roteiristas, “Astro Boy” cativa pela emoção, pelo sentimento, e por conceitos de humanidade em seres artificiais que não eram tão bem explorados desde “A.I – Inteligência Artificial”. Mesmo com alguns alívios cômicos e muita ação (robôs gigantes, yeah!), é nos laços afetivos e na busca da identidade que “Astro Boy” exibe a sua força de verdade.

(Astro Boy – 2009) - Trailer
Direção: David Bowers
Roteiro: Timothy Harris e David Bowers
Vozes: Nicolas Cage, Kristen Bell, Samuel L. Jackson, Bill Nighy, Freddie Highmore, Donald Sutherland

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